Transição energética exige escolha da fonte adequada para cada uso
Com quase 50% de energia renovável em sua matriz, o Brasil busca zerar emissões líquidas até 2050. O caminho, contudo, não será pavimentado por uma única tecnologia. Em debate na Câmara, José Mauro Coelho, ex-presidente da Petrobras, foi taxativo: a transição energética demanda escolhas da fonte adequada a cada uso. Ignorar isso compromete a competitividade do agro e a segurança elétrica.
A afirmação de Coelho ressoa no campo. O produtor rural brasileiro enfrenta demandas energéticas variadas, da irrigação e secagem de grãos ao abastecimento de máquinas. Cada atividade exige perfil de consumo, localização e confiabilidade específicos, inviabilizando soluções padronizadas.
Coelho defendeu a complementaridade entre fontes — bioenergia, gás natural, solar e eólica — como o caminho para equilibrar operação, custo e descarbonização. Para o agronegócio, escolher a fonte certa é decisivo para a produtividade e otimização de capital.

Por que a complementaridade entre fontes é a chave para o campo
Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que a bioenergia (biomassa, biogás e biocombustíveis) responde por 30% da oferta interna, com potencial para muito mais via planejamento setorial. A solar fotovoltaica, que cresceu 60% em capacidade instalada, enfrenta a intermitência, crítica no Centro-Oeste, onde dias nublados coincidem com a safra de verão.
O gás natural é alternativa para calor contínuo em secagem de grãos e produção de ração. Em Mato Grosso, substituir lenha ou diesel por gás natural em secadores pode reduzir até 40% das emissões de CO₂ por tonelada. Contudo, a escassez de gasodutos no interior favorece o biogás, gerado localmente de dejetos suínos e avícolas.
A ‘escolha da fonte adequada para cada uso’, defendida por Coelho, traduz-se em engenharia de sistemas: mapear a demanda, identificar fontes locais e dimensionar a solução por custo, confiabilidade e impacto ambiental.
O que muda para o produtor que precisa decidir onde investir agora
Para o agricultor brasileiro, o recado é prático. Quem pensa em instalar painéis solares para reduzir custos de irrigação precisa considerar que, em regiões de tarifa horária branca, o pico solar pode não coincidir com o consumo da bomba. Nesse caso, um sistema híbrido com baterias ou um gerador a biogás pode ser mais eficiente do que ampliar o parque fotovoltaico.
Pecuaristas buscando substituir diesel em tratores e colheitadeiras devem avaliar biodiesel e biometano. Este último ganha tração em frotas cativas (usinas de cana, granjas integradas), reduzindo em até 90% as emissões de gases de efeito estufa. Sua viabilidade depende de escala: uma granja com 10 mil suínos pode gerar biometano para 5 caminhões por ano, com investimento em biodigestores e purificação.
A transição energética no agro não é uma meta distante, mas um fator que já impacta o custo operacional de cada safra. Ignorar a escolha da fonte certa arrisca investimentos em ativos subutilizados ou a dependência de combustíveis fósseis em um contexto de preços instáveis e pressão regulatória.
AgTech no Brasil: de tendência a requisito de competitividade
Nos próximos cinco anos, a pressão por rastreabilidade de emissões na cadeia de grãos e carnes deve intensificar-se. Mercados como União Europeia e China já exigem relatórios de pegada de carbono para produtos importados. A escolha da fonte energética na fazenda se tornará um diferencial comercial — ou uma barreira de entrada.
Ferramentas de agricultura de precisão e sensores IoT permitem monitorar o consumo energético em tempo real. Combinadas com softwares de gestão rural, essas plataformas podem sugerir a melhor combinação de fontes para cada talhão, safra e estação. Produtores que adotam essa abordagem baseada em dados não só reduzem custos, mas constroem um ativo intangível: a certificação de baixo carbono.
A perspectiva de José Mauro Coelho reflete uma realidade em curso. A transição energética não é um destino singular, mas um conjunto de escolhas locais, técnicas e econômicas. No Brasil, o agronegócio pode liderar esse processo, desde que compreenda que nenhuma fonte isolada resolve todos os desafios. O futuro da produtividade no campo reside em encarar a energia não como commodity, mas como estratégia.
