Brasil busca solução para embargo da UE à carne antes de setembro
O senador Carlos Fávaro anunciou que o Brasil apresentará uma solução para o embargo da União Europeia à carne bovina brasileira antes de setembro de 2025. A medida, que suspendeu as importações em maio, gerou apreensão no setor pecuário e na balança comercial do agronegócio. A UE, segundo maior destino da carne brasileira, representa um mercado crucial e sua restrição prolongada pode impactar os preços internos e as rotas de exportação.
A exigência europeia centraliza-se no uso de antibióticos como promotores de crescimento na engorda de gado, uma prática comum em confinamentos brasileiros. A UE, que aplica o princípio da precaução em segurança alimentar, vê essa prática com ressalvas. Fávaro aponta a retirada voluntária dos antibióticos como o caminho mais rápido para reabrir o mercado, uma decisão que demandará ajustes significativos no manejo nutricional e sanitário de muitas propriedades.
A urgência na resposta é acentuada pelas cifras: as exportações de carne bovina para a UE somaram mais de US$ 1,2 bilhão em 2024, segundo a ABIEC. Cada mês de embargo representa uma perda estimada de US$ 100 milhões para frigoríficos e pecuaristas, evidenciando a pressão econômica para uma resolução até setembro.

Por que a retirada dos antibióticos é a saída mais viável agora
A proposta de Fávaro alinha-se à prática da UE desde 2006, que baniu o uso de antibióticos como promotores de crescimento. Embora o Brasil mantivesse a prática regulamentada, a fiscalização era menos rigorosa. Agora, o embargo impõe uma exigência comercial inegociável.
Na prática, a eliminação dos antibióticos demanda a adoção de alternativas como probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos e enzimas. Estes insumos já são utilizados por produtores que buscam certificações como a Carne Carbono Neutro ou o selo Rainforest Alliance. O desafio reside em expandir essa transição para confinamentos de médio porte, responsáveis por aproximadamente 30% do gado terminado no país. O custo adicional por arroba pode variar entre 2% e 5%, um fator relevante em um mercado de margens apertadas.
O fator tempo é crítico. A adaptação do manejo nutricional requer de 60 a 90 dias para ajustar dietas e monitorar o desempenho dos animais. Se uma solução for apresentada até setembro, as fazendas-piloto deveriam estar em teste desde junho. A ausência de cronogramas concretos por parte do Ministério da Agricultura gera preocupação.
O que muda para o pecuarista brasileiro com o embargo da UE
Para os produtores que abastecem frigoríficos exportadores, a adequação ao novo padrão sanitário torna-se um requisito para acessar o mercado europeu e, potencialmente, outros mercados exigentes como Japão e Coreia do Sul. A rastreabilidade individual do boi, já exigida em alguns programas de certificação, tende a se tornar uma necessidade básica.
Exemplos concretos demonstram a viabilidade da transição. A Fazenda São Marcelo, em Mato Grosso, eliminou antibióticos há três anos, mantendo um ganho médio de 1,4 kg/dia com dieta à base de milho e ureia protegida. O aumento de 3% no custo operacional foi compensado pelo prêmio pago pelo frigorífico parceiro. Em contrapartida, a Agropecuária Jaciara, em Goiás, redirecionou sua produção de 100% para o mercado interno e China, após optar por manter os antibióticos. Essa estratégia depende da demanda chinesa e expõe o negócio a riscos geopolíticos.
O produtor precisa ponderar: investir na adequação sanitária agora, controlando custos e garantindo acesso a mercados premium, ou aguardar a definição governamental e arriscar estoques represados. A Scot Consultoria estima que o preço da arroba do boi gordo no mercado interno pode recuar até 8% se o embargo persistir por mais de seis meses, um impacto considerável para quem opera com margens líquidas de 5% a 7%.
AgTech no Brasil: de tendência a requisito de competitividade
O embargo da UE reforça a importância da tecnologia na agricultura de precisão, transformando-a de diferencial em condição para competir no mercado exportador. Sensores de consumo alimentar, softwares de gestão de confinamento e plataformas de rastreabilidade em blockchain tornam-se infraestrutura essencial para operações que visam mercados regulados.
Nas próximas semanas, espera-se que o governo federal anuncie linhas de crédito do Plano Safra para financiar a transição sanitária e tecnológica. O Programa ABC, focado em práticas de baixa emissão de carbono, pode ser expandido para abranger a substituição de antibióticos. Essa iniciativa representaria uma janela de oportunidade para modernizar o manejo com juros subsidiados, algo não visto desde a criação do Moderagro.
A busca por certificação internacional está em andamento. Ações tardias podem comprometer a competitividade. O mercado europeu e o Brasil, como maior exportador mundial de carne bovina, não podem perder um cliente que valoriza qualidade e paga prêmio. As soluções técnicas existem; a execução no campo é o próximo passo crucial.
