Profert: impulsiona fertilizantes nacionais e reduz importações
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. Esse número, por si só, já justifica a urgência de políticas públicas que estimulem a produção interna. O Profert — programa de incentivos à indústria nacional de fertilizantes — avança no Senado e promete reacender o debate sobre soberania produtiva no campo. A proposta, que adapta benefícios fiscais à nova reforma tributária, pode ser o ponto de inflexão que o agronegócio brasileiro espera para reduzir a vulnerabilidade externa.
O cenário geopolítico dos últimos anos — guerra na Ucrânia, sanções à Rússia e volatilidade logística global — escancarou o risco de depender de poucos fornecedores para um insumo tão estratégico. O Profert não é uma ideia nova, mas ganhou tração justamente quando o custo de não produzir internamente ficou mais evidente. A proposta prevê créditos presumidos de PIS/Cofins e redução de IPI para empresas que investirem em novas plantas ou na expansão de unidades existentes no Brasil. O relator, senador Laércio Oliveira, sinalizou que a votação deve ocorrer nos próximos dias.

O que o Profert muda na equação dos fertilizantes
Diferente de subsídios genéricos, o Profert é desenhado para estimular investimento produtivo, não consumo. As empresas beneficiadas precisam comprovar aumento de capacidade instalada e geração de empregos diretos. Isso significa que o programa mira a verticalização da cadeia — desde a extração de matérias-primas até a formulação final de fertilizantes NPK. Hoje, o Brasil produz cerca de 30% do que consome, com destaque para fosfatados, mas ainda depende fortemente de potássio e nitrogenados importados.
Do ponto de vista de mercado, a aprovação do Profert pode acelerar projetos já anunciados por grandes grupos, como a expansão da mineração de potássio em Sergipe e a construção de novas fábricas de ureia no Centro-Oeste. A lógica é simples: com incentivos fiscais previsíveis por 10 anos, o risco de investir em plantas de grande escala diminui, e o retorno sobre capital se torna mais atraente. Para o produtor rural, o efeito esperado é a redução gradual do custo do fertilizante, hoje fortemente atrelado ao câmbio e ao frete internacional.
O que muda para o produtor brasileiro com o Profert
Na prática, o produtor de soja, milho ou café pode não sentir o impacto no curto prazo. A construção de novas plantas leva de 3 a 5 anos. Mas o sinal político é claro: o governo federal e o Congresso reconhecem que a dependência externa de fertilizantes é um gargalo estrutural. Para quem planeja a safra 2026/2027, o Profert representa uma aposta em custos mais estáveis e menor exposição a choques externos.
Há, porém, um ponto de atenção. O programa depende de regulamentação da reforma tributária, que ainda está em fase de transição. Se os incentivos não forem claros e estáveis, o efeito prático pode ser limitado. O produtor deve acompanhar de perto a tramitação no Senado e, principalmente, os decretos regulamentadores que definirão as regras de enquadramento. Empresas como a Mosaic e a Yara já sinalizaram interesse em ampliar operações no Brasil, mas condicionam novos investimentos à segurança jurídica do programa.
AgTech no Brasil: de tendência a requisito de competitividade
O Profert não é uma solução isolada. Ele se insere em um movimento mais amplo de reindustrialização do agro brasileiro, que inclui desde a produção local de defensivos até o desenvolvimento de bioinsumos. A dependência de fertilizantes importados é um dos últimos grandes elos frágeis da cadeia. Se o programa for aprovado e bem executado, o Brasil pode reduzir a importação em 20% a 30% na próxima década, segundo estimativas de consultorias do setor.
O desafio agora é transformar a intenção em execução. O histórico de políticas de incentivo no Brasil é cheio de idas e vindas, e o produtor já aprendeu a desconfiar de promessas que não saem do papel. Mas o momento é favorável: a reforma tributária criou um ambiente de simplificação que pode viabilizar regimes especiais como o Profert. Se o Senado aprovar o texto nos próximos dias, o próximo passo será a sanção presidencial e a regulamentação. Para o agro brasileiro, o recado é claro: a janela para reduzir a dependência externa está aberta, e o custo de perdê-la pode ser alto demais.
